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O Gótico Feminino

Bora falar de Gótico? Se liga na entrevista que fiz com a autora Bel. Quintilio:





“Três pontos essenciais do gótico: a atmosfera soturna e melancólica; um segredo antigo e macabro, fazendo do passado uma presença constante e perigosa, que ameaça o presente e o futuro das personagens e, principalmente, um cenário, um locus horribilis que também é personagem, que potencializa o que está acontecendo na trama.”






Quais são as suas influências góticas?


Carlos Ruiz Zafón é, com certeza, minha maior inspiração, tanto literária quanto gótica. Aliás, acredito que o Zafón seja um dos principais nomes do Gótico contemporâneo. Além dele, posso citar a Ann Radcliffe, mãe do Gótico Feminino; e Horace Walpole, autor do primeiro romance Gótico da História – O Castelo de Otranto. Os escritores Henry James e Laura Purcell também estão entre as minhas inspirações literárias. Já em termos audiovisuais, gosto muito de como o Tim Burton e o Guillermo Del Toro trabalham a estética gótica. Nos quadrinhos, sou apaixonada pela atmosfera de Sandman, enquanto nos animes posso dizer nomes como Ergo Proxy, Shiki, D. Gray Man e Trinity Blood.


Alguns citam o noir doméstico como o gótico moderno, acha que tem alguma correlação?


Acredito sim que há uma correlação entre o gótico e o noir doméstico. Poucas pessoas sabem, mas quando falamos de Literatura Gótica, estamos falando de um momento de extrema importância para as mulheres. Em primeiro lugar, porque foi a expansão do Gótico, lá pelo século XVIII, que possibilitou às mulheres se tronarem escritoras profissionais, ganhando seu sustento a partir de suas obras. Em segundo, e a meu ver, o mais importante, porque possibilitou que as mulheres retratassem ficcionalmente, pela primeira vez, a realidade que elas viviam. Assim nasceu a tradição do Gótico Feminino – obras que se utilizavam da estética Gótica para denunciar os abusos físicos e psicológico que as mulheres sofriam nas mãos de seus maridos, pais, irmãos, tios… O Gótico Feminino foi um belo grito contra a hipocrisia de uma sociedade patriarcal que exigia dessas mulheres um comportamento impossível de se ter quando elas eram objetificadas e ameaçadas diariamente por figuras masculinas – que recebiam dessa mesma sociedade o aval para fazerem as coisas mais hediondas. No Gótico Feminino, temos obras cujos enredos giram em torno de uma protagonista mulher que, à mercê de uma figura masculina, retrata as relações abusivas e os horrores enfrentados por elas dentro de instituições sociais – como família, casamento e Igreja. Ainda que o noir doméstico tenha a sua própria essência e intenção, acredito que ele conversa com o Gótico Feminino quando retrata a realidade crua de mulheres que ainda são prisioneiras dessas mesmas instituições, em especial, o casamento. Assim como o Gótico Feminino, as obras do noir doméstico falam sobre a luta pela sobrevivência dessas mulheres.





Em segundo, e a meu ver, o mais importante, porque possibilitou que as mulheres retratassem ficcionalmente, pela primeira vez, a realidade que elas viviam.




Quais são os exemplos modernos da literatura gótica? Algum livro nacional contemporâneo?


A produção gótica aumentou bastante nos últimos anos. Segundo o escritor brasileiro Daniel Gruber, o Horror sempre reaparece com força quando se está enfrentando um momento de crise. Vale lembrar que o Horror deriva do Gótico, e que o Gótico, por sua vez, tem como sua essência retratar o lado mais sombrio do ser humano. Num momento de pandemia e tanta instabilidade política, dentro e fora do Brasil, faz sentido que as produções busquem no Gótico um gênero para abrigar suas narrativas. Em termos do Gótico contemporâneo, indico qualquer livro do Carlos Ruiz Zafón, mas em especial o A Sombra do Vento. A editora Dark Side publicou dois romances que, embora um tanto controversos, são ótimos exemplos da literatura Gótica: O Silêncio da Casa Fria, da Laura Purcell, que vai abordar bastante o que a gente chama de Gótico Imperial, explorando de um jeito muito interessante o medo do outro; e Gótico Mexicano, da Silvia Moreno-Garcia, que contém praticamente todas as características do Gótico Feminino. No cenário nacional, a produção gótica ainda me parece um pouco tímida. Nesse momento mesmo estou à procura de escritoras e escritores do Gótico (aliás, se você escreve gótico, entra em contato comigo pelo Instagram!). Ainda assim, tenho duas excelentes recomendações de leitura: Lauren, da autora Irka Barrios; e Post Mortem, da Suzan Cruz.



Para você, o que não pode faltar em uma história gótica.


Que pergunta difícil! Acho que de tudo o que eu mais amo no Gótico, três pontos essenciais são: a atmosfera soturna e melancólica; um segredo antigo e macabro, fazendo do passado uma presença constante e perigosa, que ameaça o presente e o futuro das personagens; e, principalmente, um cenário, um locus horribilis que também é personagem, que potencializa o que está acontecendo na trama. Eu simplesmente amo casarões antigos que funcionam como representação da decadência humana.


O Gótico Feminino foi um belo grito contra a hipocrisia de uma sociedade patriarcal que exigia dessas mulheres um comportamento impossível de se ter quando elas eram objetificadas e ameaçadas diariamente por figuras masculinas – que recebiam dessa mesma sociedade o aval para fazerem as coisas mais hediondas.

Conta um pouco da sua história como escritora e quando o gótico entrou na sua escrita.


Eu costumo falar que sempre fui gótica, só não sabia! Uma das minhas lembranças mais antigas é a de estar dentro do carro, olhando para uma igreja do outro lado da rua. O lugar devia estar abandonado fazia muitos anos. O portão enferrujado estava quebrado, as paredes tinham rachaduras enormes e estavam cobertas por manchas de bolor, o telhado tinha vários buracos e, cercando essa carcaça de construção, havia a grama alta. Eu não devia ter mais do que quatro anos e me lembro de ficar encantada com aquele lugar. Ele despertou em mim algo que transitava entre o medo e o fascínio. Eu sempre gostei de lugares abandonados – casas, principalmente. Toda vez que eu vejo lugares assim, seja pessoalmente ou através de fotos e vídeos, eu me sinto mergulhando nos ambientes antigos e me pergunto quantas vidas já passaram por ali. Quantas histórias fazem parte das construções? Quais eram os desejos e os medos dos seus habitantes? Por que tiveram que ir embora? Mas foi só enquanto eu escrevia Mûrier, meu segundo romance – um horror gótico que está na etapa de leitura crítica –, que eu realmente entendi o que o Gótico significa para mim. Foi quando comecei meus estudos e pesquisas sobre o gênero e não parei mais. Acho que o que mais me fascina no Gótico é a vida que foi um dia, e que já não é mais.


 

Bel. Quintilio é escritora de Horror. Seu romance de estreia, Céu de Pássaros, foi finalista no 3º Prêmio Aberst de Literatura na categoria Suspense. É colunista no blog literário Canto do Gárgula, na qual escreve mensalmente sobre as vertentes do Fantástico e do Horror. Atualmente está trabalhando nas últimas etapas de seu segundo romance, Mûrier, uma obra de horror gótico situada nas montanhas de uma Tchecoslováquia de 1899.




Siga a autora no instagram : @bel.quintilio


 

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