Autora Revelação do 1º Prêmio Aberst de Literatura 2018

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Pisca-pisca-pisca-pisca.

A cidade se assemelha a uma propaganda de Natal da Coca-Cola. A única e específica missão dessas luzinhas é me confrontar. Meu humor se acende e apaga com elas. Tenho ódio, ou melhor, aversão, como meu psiquiatra me orientou. Ele diz que é fotofobia ou medo psiconeurótico da luz. Alguma coisa guardada feito louça cara, que me custou muito na infância ou adolescência. Ele diz que memórias são como fantasmas, não esperam a melhor hora para aparecer, simplesmente nos visitam sem ser convidadas. Para mim não passa de enrolação, um protocolo para me manter vindo a essas sessões. E tudo se intensifica na época natalina. As pessoas só faltam pendurar essas malditas na testa e sair por aí, a desfilar. Há uma competição acirrada entre a vizinhança que as espalham por todos os milímetros das janelas, portas, jardins, árvores. Eu os observo, do interior escuro do meu quarto, vigilante. Se a raiva tivesse um cheiro, seria o ardido de cebola.

Afasto-me da janela e coloco meu plano em prática. Levei um ano inteiro, nos pequenos e grandes detalhes. Fiz tudo certo. Encaro o reflexo no espelho até meus olhos se adequarem a ausência de luz. Camisa, calças e botas negras, se eu tivesse uma capa e uma máscara poderia me passar pelo cavaleiro das sombras.

Eu sou o Batman — penso.

Meu sorriso branco flutua no negrume sem fim que me cerca, como um farol iluminando minha vingança. Aprecio o momento. A epinefrina contamina meu sangue, e como se todas as formigas do mundo caminhassem sobre minha pele.

Pisca-pisca-pisca.

Saio de casa e enfrento a minha moléstia. Eu me colo às poucas sombras que restam pelo caminho salpicado de pontos iluminados. O suor empapa minhas axilas, pescoço e buço. O calor que faz em pleno dezembro em nada se assemelha a quantidade de filmes com a neve, trenos e cachecóis nas televisões por onde passo. O peso da mochila me retarda e me lembra do meu sobrepeso. Efeitos da ansiedade, como diz meu psiquiatra.

O plano é ir a pé até a Colina da Luz. Que ironia! E lá, pegar a vespa que aluguei. Levo meia hora a mais do que o planejado, a sorte é que saí com antecedência. Sou espartano com horários. Conforme me afasto do centro da cidade, as luzes vão ficando esparsas. A periferia não se enfeita como o centro, mas não importa, mesmo em pouca quantidade, elas estão lá, presentes nas árvores simplórias de Natal. Caminho pela estradinha rumo ao pé do monte. Retiro os galhos e folhas que coloquei para esconder a motoca. Subo, aliviado por não precisar andar mais. A escuridão me abraça e eu me aconchego a ela. A paz me consome e o vento bate nos meus ouvidos.

Pisca-pisca.

De repente, algo assopra a mente. Tento brecar, mas o “fantasma” é mais forte que eu. Um menino magricela corre em direção a uma praça escura. As batidas do meu coração ressoam, feito tambor. Bum-Bum-Bum. Pisco e a criança está na minha frente, sorridente.

— Vamos, eles vão acender as luzes — ele diz e agarra meu braço.
— Me solta!
Eu puxo minha mão, mas o menino é forte. Ele me encara com interesse.
— Você esperou por isso o ano inteiro, por que a teimosia agora? — Ele aguarda uma resposta, o que não acontece, então, emenda: — Bené, esquece isso, eles são meninos maus e não estão mais aqui. Nada vai te acontecer. Prometo.

A dúvida se agarra em mim na proporção que as lágrimas despencam dos olhos, não há como pará-las. O soluço me pega de jeito e o turbilhão me carrega. O menino me abraça e de repente, todas as luzes da praça se acendem. Múltiplas, coloridas, ofuscantes. Uma euforia toma conta das pessoas ao redor, mas não em mim. Aqui dentro só há desespero e as lembranças dolorosas que cintilam como as luzinhas coloridas que estavam ao meu redor e também dentro da minha boca, envolta das minhas mãos, torço, pernas, até mesmo dentro das nádegas. Sangue e luz, dor e cor. Natal. Um grito escapa das minhas entranhas e ecoa pela praça. Eu volto ao presente, mas a dor e as lágrimas me seguem, como se elas se teletransportassem junto com as memórias indignas. Fantasmas.

Pisca.

Limpo o rosto e foco no plano. Dou partida na vespa. Fase um completa. Confiro o relógio, estou quase atrasado. Bato em retirada, rumo a colina. No retrovisor, vejo o menino sujo de sangue, deitado em uma sala escura, envolto em luzes natalinas que piscam e piscam e piscam. Desvio o olhar. Chego ao meu destino as vinte e três horas em ponto. Proibida a entrada de estranhos. As letras amarelas me saúdam e se destacam na placa preta da entrada. Dou de ombros. Eu não sou estranho — penso. Trabalhei aqui por seis meses. Andei por todos os cômodos, espaços e áreas. Conheço essa companhia com a palma da minha mão. Alcanço o crachá no bolso da mochila e coloco ao redor do pescoço. Sigo pela estradinha que circunda o local. A cerca aramada me faz companhia. Escondo a motoca e corro até a grande porta de ferro. A placa grita: somente pessoal autorizado.

— Eu sou autorizado — sussurro para ninguém.

Deslizo o crachá pela superfície digital grudada na porta. A luz vermelha pulsante se torna verde, em segundos. O barulho da trava se abrindo destranca o meu sorriso. Fase dois completa. O corredor escuro é lugar comum. Ando devagar, tenho todo o tempo do mundo. A autoconfiança me faz tropeçar. Aterrisso de cara no chão, um som oco rebate nas paredes de pedra.

Pisca.

Algo assopra na mente. São esses malditos fantasmas, de novo. Um homem amarrado no chão em uma sala escura. As batidas do meu coração ressoam nos meus ouvidos, feito tambor. Bum-Bum-Bum. Pisco e ele está na minha frente.

— Bené, por favor, cara. Não fiz por mal. Amanhã é Natal, tenha piedade.

— Como você e sua turma tiveram comigo? Era véspera de Natal também e eu tinha apenas doze anos, seu desgraçado! E isso não impediu vocês de me machucarem, só porque eu gostava dessas malditas luzes de Natal.

— Desculpa cara…

— Não quero suas desculpas — digo, pondo um ponto final na conversa.

— Apenas quero minha vida de volta — penso. Eu dou um mata-leão nele, que desmaia.

O barulho que emana do meu órgão pulsante é oco, como se não houvesse nada dentro. Eu me aproximo dele, o cordão lateja em minhas mãos. Eu faço o trabalho devagar, enrolo cabeça, torço, mãos, pernas e deixo um pedaço longo do pisca-pisca para o acabamento final. Então, enfio cada luzinha restante no fiofo do maldito. Depois, encaixo o plug do enfeite natalino na tomada. A melhor árvore de natal se ilumina na minha frente. Vingança e luz, contentamento e dor alheia. Natal. Uma risada gutural, ameaçadora e satisfeita escapa da minha garganta. Eu volto ao presente, porém, agora não parece ser tão saboroso quando foi de manhã. Não há regozijo, apenas um gosto agridoce na minha boca, tal qual ceia natalina. Fantasmas. Eu olho para trás e vejo um homem brilhando no escuro de uma sala.

— Porra, Bené, foco! — digo para mim mesmo.

Pisca-pisca.

Atravesso o corredor que me levará ao saguão. A penúltima fase é a parte mais difícil e exige maior atenção. Há dois guardas, como previsto. Eles tagarelam, distraídos, ao som do noticiário de uma pequena televisão. Eu subo pela escada lateral e alcanço o enorme tubo do teto. Ele será meu passaporte para a sala de controle. Avanço, devagar, não quero chamar atenção deles. A voz grave da apresentadora me guia. Chego a escada já dentro da sala principal, que como esperado, está vazia. Terceira Fase completa. O meu final feliz está a minha frente. O sangue vira cubos de gelo nas veias e me arranham por dentro. Esfrego meus braços enquanto caminho em direção ao Gerador Geral da Companhia de Luz. Retiro os explosivos caseiros da mochila e os prendo com uma corda ao redor da máquina que gera toda a eletricidade, e posso dizer a alegria daqui. A visão da cidade escura levanta todos os pelos do meu corpo, e quase me leva ao êxtase. Depois que termino tudo, volto pelo mesmo caminho. No corredor, saio para o pátio, onde há uma grande torre.

Do alto, vejo uma cidade que pega fogo pela quantidade de brilho. São quase meia noite. Eu tiro a vasilha com comida que eu mesmo preparei e umas latinhas de cerveja. Saboreio minha ceia e brindo ao Natal às escuras que estou prestes a presenciar. Checo o relógio. Tenho ainda quinze minutos. Pego o dispositivo que vai acabar com a festa de natal dessa cidadezinha dos infernos. A mão coça e as formigas voltam a me fazer de passarela. Levanto-me, a ansiedade me consome. Fico tonto e é como se mil luzinhas de natal se enterrassem na minha pele. Eu ardo, feito queimadura do sol ao meio dia.

Pisca-pisca-pisca.

De repente, algo assopra a mente. Lembranças. Não, não são lembranças, é um fantasma. Uma porra de um fantasma! Ele flutua na minha frente com um dedo em riste e uma capa iluminada que cobre o corpo por inteiro. As luzes do manto piscam de acordo com as batidas do meu coração. Pisca-pisca-pisca-pisca. Fecho os olhos, só pode ser delírio da minha mente desequilibrada. Torno a abri-los, porém, o espectro está a minha frente, a planar. Ele nada diz, apenas estica a mão e aponta para o chão. Eu debruço por sobre a marquise da torre. De lá, vejo um corpo estatelado no calçamento. Não consigo visualizar direito, então desço.

Percebo, em choque, que sou eu, retesado no chão. Uma das mãos esticada, a buscar algo. Dou a volta no meu próprio corpo. O dispositivo que apagaria a cidade era o alvo do meu último desejo. Como despenquei lá de cima? Olho ao redor e percebo que está escuro. E aos poucos, o negrume se intensifica, sombras parecem se desgrudar dos lugares que antes habitavam e se esticam em minha direção. Volto a atenção ao espectro, o único ponto de luz existente. Ele está com o dispositivo em uma das mãos. A outra, ossuda, está esticada em minha direção. Eu preciso fazer uma escolha. Salvação ou danação?

Pisca-pisca-pisca-pisca.

 

O Tal Espírito de Natal

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