Autora Revelação do 1º Prêmio Aberst de Literatura 2018

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Sou viciada em sorrisos.

Todo e qualquer tipo: triste, escancarado, sem dentes ou até mesmo amarelado. Tenho fascínio por aquela parte do rosto que, com apenas um movimento, tem o poder de transformar a vida ao redor. Um pequeno sopro de esperança que uma pessoa dá a outra. O mundo precisa disso, esperança. E é tão simples, e o melhor, é de graça e não precisa de reciprocidade como o abraço, neste precisa-se de dois, o outro tem que estar disposto. Com o sorriso não. Está ali, só esperando uma chance, um abrir de lábios, desabrochando com eles a oportunidade de mudar o mundo ao seu redor.

Sorriso, parece nome de flor.

Eu coleciono sorrisos.  Gosto de pegar a pessoa bem no meio do ato, desprevenido, apenas emanando aquele pedaço de felicidade. Tenho quase 20 tipos catalogados: o largo, o sincero, o que mostra uma covinha escondida ou a vermelhidão das bochechas, o amarelo, o que espera o outro sair para esmorecer no rosto, o interesseiro. Todos eles guardados como flor em estufa, para que eu os aprecie devagar, como um bom vinho. Minha mente funciona como uma máquina fotográfica, registro aquele momento e depois reproduzo, centímetro por centímetro, cada curva, cada expressão generosa. Coleciono a mais de 10 anos, acho que nasci para isso.

No começo foi estranho e difícil de memorizar. Levei dois dias para reproduzir fielmente o primeiro, um dos que mais gosto. Ela era uma vendedora de flores, nunca soube seu nome. Eu a batizei de Margarida, pois são minhas flores favoritas. Bati meus olhos e só o sorriso dela me importava. Pequena, frágil, de pele ressecada, mas quando sorria, o mundo girava um pouco devagar.

Eu a admirei por dias, fascinada. As pessoas eram atraídas por ela como mariposas em busca da luz. E apesar da chuva, do trânsito, do caos, aquele abrir de lábios era a confirmação que a esperança estava guardada em algum canto esquecido e empoeirado da gente, mas era acessível. Ela sorria e o mundo quase parava de respirar e logo depois, sorria com ela. Só a vi apreensiva uma única vez.

O segundo sorriso foi de uma velha cigana que encontrei em uma feira. Violeta era seu nome – tive o cuidado de perguntar antes. Ela tinha apenas um dente de ouro naquele mar de gengiva. O ouro me perturba até hoje. No começo, foi um pouco agoniante ver aquela gengiva rosa brilhando para mim, mas aos poucos, algo desabrochou. Ela tinha um sorriso hipnotizante. Eu precisava dele e Violeta, de algum modo, sabia disso. Quando peguei o sorriso, ela me disse bem baixinho:

— Eu sabia que você viria!

Eu não acreditei nela. Ainda hoje não acredito. De tempo em tempos, a frase ainda corre nos meus pensamentos. Às vezes acordo assustada, com um dente de ouro flutuante, que diz: “Eu sabia que você viria!

O último eu demorei de colher. Tive que ter paciência. Ela se sentava todos os dias em um café, parecia concentrada, quase nunca sorria, mas eu sabia que ela tinha potencial. Um dia, chovia muito, o trânsito estava caótico, as pessoas mal-humoradas, mas ela levantou os olhos do pequeno computador dela e deu o sorriso mais largo, mais brilhante, mais surpreendente que já vi. Era de conquista, como se ela tivesse subido na montanha mais alta, atravessado a nado o maior dos oceanos, como se ela tivesse seu próprio universo dentro dela. Fogo, lavas e vulcões.

Só descobri o nome dela depois, quando abri seu computador pessoal e na tela, apareceu o que ela tanto trabalhava. Eram palavras e mais palavras. Frases, parágrafos e pontos e travessões.

— Um livro!!

Ela era mesmo um Deus de seu próprio universo. Um sorriso franco brotou dos meus lábios, e eu quase não sorria assim. “A colecionadora de sorrisos” era o nome do livro. Hoje busco meu vigésimo sorriso, algo entre “sabia” misturado com “desconfiei”. Um tipo sabido, autoconfiante, sabe? Por isso pergunto:

— Você já sorriu hoje?

 

A COLECIONADORA DE SORRISOS

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