Autora Revelação do 1º Prêmio Aberst de Literatura 2018

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A AJUDA

Preciso de uma diarista.

A poeira não está somente se escondendo pelos cantos, ela já fixou residência. Onde quer que eu encoste, lá está ela, manchando meu jaleco branco ou atacando minha renite. Pobre da minha coleção de passarinhos de cerâmica, que está soterrada pelo deserto do Saara que tomou conta de casa. Apelei para todos os santos, o que não adiantou muito. Assim, resolvi recorrer às minhas redes sociais. Roguei por uma indicação de uma alma de confiança. É meu único desejo. A salvação veio de Aline, uma conhecida que vende pães artesanais.

— Stephanie é de confiança, cozinha bem, atenciosa, não falta, e limpa que é uma beleza — ela me diz pelo aplicativo de mensagem.

— Perfeito — respondo.

Podem me chamar de louca, mas um coral celestial cantou ‘aleluia’ quando Stephanie apareceu na minha porta envolta na luz matinal que jorrava do hall. Obrigada Senhor! No final do primeiro dia, a casa está habitável de novo e os passarinhos de cerâmica cantam felizes da prateleira da cozinha. E pra acabar de arrebatar meu coração, Stephanie fez um pão artesanal maravilhoso, receita que aprendeu com Aline. Muito perfeição para uma pessoa só. Meu cérebro analítico berra em meio a abocanhadas de pão quente com manteiga e café. Enxoto as paranoias para algum lugar empoeirado do meu cérebro. Estou tão anestesiada e agradecida por ter achado Stephanie que entrego a chave do apartamento, algo que nunca fiz antes.

À noite, examinando a geladeira, encontro uma marmita pronta, com um post-it escrito “jantar”. Lágrimas brotam em meus olhos. Depois da refeição arrumo tudo e me preparo para dormir. Porém, antes de sair, percebo uma luz bruxuleante vinda da área de serviço. Apesar de achar estranho, vou até a despensa. Em uma das prateleiras, um passarinho da minha coleção jaz, sem cabeça, ao lado de uma vela acessa. Como uma boa cirurgiã que sou, noto que a cabeça foi cirurgicamente removida, não há uma só lasca ou trincado na cerâmica. Freio meus pensamentos que batem nos cantos da minha mente, tal qual um carro desgovernado. Não encontro explicação para a cena mórbida, nem a cabeça do pássaro tão pouco. Apago a vela e guardo a peça. Vou dormir com a mente dando voos rasantes. Stephanie deve ter uma boa explicação para isso! A semana passa, mas o passarinho não. Sonho diversas vezes com pássaros sem cabeças voando pelo apartamento. Na quinta, esqueço totalmente que ela tem a chave e tomo um susto quando encontro a cozinha limpa, a mesa posta e Stephanie sorridente com uma faca na mão. Um calafrio estranho desce pela espinha. Tomo meu café fingindo tranquilidade. A cafeína me dá confiança.

— Stephanie, você viu um passarinho amarelo da minha coleção? — Aponto para a prateleira.

— Não — ela responde tão plácida, que penso que sonhei tudo aquilo.
— Engraçado, achei isso na segunda.
Abro a gaveta e procuro pelo corpo sem cabeça do passarinho, mas não há nada lá. Ela aparece ao meu lado, interessada e pergunta:

— O quê?

Minha língua murcha na boca enquanto uma onda gelada caminha pelas minhas veias.

— Ah deixa pra lá, não é importante. — Disfarço.

Pego meu celular em cima da mesa e o coloco no bolso da calça. Saio da cozinha, não sem antes observá-la pelo cobogó da sala. Ela cantarola, tranquila, uma canção que não conheço. Começo a suspeitar de mim mesma. Eu devo ter sonhado. Vou para meu quarto e tomo medidas drásticas: tranco a porta. A sensação de um filme de terror barato me consome. Pego meu celular no criado-mudo e mando uma mensagem para a Aline. Escuto algo vibrar no meu bolso. Alcanço o objeto e percebo que peguei o aparelho da Stephanie por engano. A tela do celular está iluminada. A mensagem que acabei de mandar para Aline aparece no visor.

Laura: Aline, tudo bem? Preciso falar com você com urgência, me liga.

Solto o celular. Pareço uma britadeira. Um medo visceral se transforma em suor frio, que se molda em mim e me aprisiona. A mente fabrica as piores cenas. Coloco meus pensamentos em ordem. Se ela se passa por Aline. AONDE CARALHOS ESTÁ A VERDADEIRA? Morta? Meu coração bombeia devagar quando lembro do passarinho sem cabeça na despensa. No mesmo instante, alguém força a fechadura da porta.

— Dona Laura, está tudo bem? — a diaba pergunta.

Eu agradeço por tê-la trancado. Ela força de novo e dá uma leve batida contra a porta. Por um instante fico sem reação, até uma vozinha gritar dentro de mim: Reaja mulher! Ligo para a polícia enquanto ela esmurra a madeira que nos separa. Em um dado momento, ela passa uma faca pelo vão da porta, como se tivesse passando manteiga em uns dos pães artesanais dela.

— Sua estúpida, você estragou tudo! — ela urra diversas vezes.

Escuto os passos da peste corredor afora. Depois, tudo fica em silêncio. Não sou dada a heroísmos, permaneço no quarto. A polícia chega uma hora depois. A bandida fugiu pela escada, e ninguém consegui identificar o rosto dela nas câmeras. Passo as poucas informações para o Policial Matias junto com o celular da Stephanie. Ele me leva até a cozinha, onde minha coleção de passarinhos de cerâmica está em cima da mesa, todos decapitados, e na estante, uma vela vermelha brilha ao lado de uma tigela de farofa.

— O que é isso? — pergunto, mesmo sabendo a resposta.

— Parece um ebó — o policial me diz.
Macumba. Faço o sinal da cruz.
— Pelo menos ninguém se feriu…

— Ainda não temos certeza. Não encontramos sua amiga Aline.
Ela não é minha amiga. Conheci pela internet, e, talvez, ela nunca existiu.
— Eu só queria uma diarista — penso em voz alta.
— Minha avó sempre diz: cuidado com o que deseja. — Ele me dá um sorriso descrente e se encaminha para o hall. — Bom dia, senhora, qualquer coisa nos ligue. Tranque a porta — ele aconselha.

O silêncio me abraça. Noto que tem um passarinho intacto embaixo da mesa, com um papel embaixo. Estico a mão para ele.

“Dona Laura, mais vale um pássaro na mão, do que mil decapitados na estante, se cuida!”

Sento no chão brilhante e perfumado da cozinha e choro como nunca fiz antes.

Larissa Brasil

 

A AJUDA

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