Autora Revelação do 1º Prêmio Aberst de Literatura 2018

Adicione o texto do seu título aqui

Copyright © 2018 Larissa Brasil
Todos os direitos reservados à autora.

É proibida a reprodução.

Nenhum trecho desta obra poderá ser reproduzido, transcrito, copiado ou transmitido por meios eletrônicos ou gravações, assim como traduzido, sem a permissão, por escrito, do autor. (Lei 9610/98)


Mortos.

Transbordam, multiplicam, fertilizam tudo ao redor. Estão no ocre do ar, no verde que piso, nas flores murchas que retiro dos suportes, nas chamas das velas que dançam inquietas a espera do fim. Dali, dos jazigos, túmulos e covas abertas ou recém cobertas, eles não me julgam, diferente de nós, vivos. Dou de ombros. O sol a pino faz a água brotar do meu corpo. Mãos, pés, costas, sovaco, tudo suado. Exalo o mesmo odor dos que enterro. Alcanço a pá de ferro e a encaixo na terra vermelha. Escavo até alcançar a profundidade almejada, os famosos e temidos “sete palmos abaixo da terra”. Quando dou a última pazada, tiro meu boné e olho para o retângulo acima de mim. É a melhor parte do meu dia. Se com sorte, pego um pedaço de céu azul, emoldurado com nuvem e sol, um arco íris, talvez uma lua cheia ou nova com céu estrelado, ou a chuva lavando a terra.

Meu paraíso particular.

Porém, hoje, não vejo nada disso. Uma mancha negra bloqueia quase totalmente a visão de meu refúgio retangular. Apoio a mão na parede de terra e puxo o ar. Um ronco aterrorizante me assusta, percebo que é a minha tentativa de respirar que produz o som medonho. Meus músculos se retesam e a fermentação os preenchem de dor e paralisia. Minha mão se retorce, dura, enquanto caio no chão. O suor frio veste meu corpo em um terno apertado, não consigo me mexer. Ainda procuro oxigênio, como um peixe fora d’água, as brânquias abrindo e fechando, abrindo e fechando, abrindo… Miro o meu retângulo e a mancha preta acima cresce, desfocada.

Acordo sobressaltado, deitado na grama, fora da cova. O que diabos aconteceu? Ao meu lado, há um senhor com roupas de monge, livro vermelho berrante não mãos e capuz por sobre a cabeça. Ele se vira para mim, e mesmo não vendo seu rosto, escuto a voz calma em meus ouvidos:

— Ambrósio?
— Pois não? — respondo, tentando me sentar na grama.
— Quer um pouco de água?
— Sim, obrigada. O que aconteceu?
O homem não me responde. Levanta e vai em direção oposta ao da garrafa de água.
— Ei, senhor, a garrafa está ao lado da minha mochila.
— Tem uma torneira ali…
— NÃO! Essa é imprópria para uso, como a placa diz — bufo irritado, uma mão
apontada para a direção das palavras.
— O que tem de errado com a água da torneira?
— É imprópria para consumo humano, afinal, o que tem embaixo da terra
contamina tudo ao redor. Enxofre, gases, carne em decomposição…
Reviro os olhos.
— Ah, entendi! — é a única coisa que o estranho diz. E apesar do meu alarde, ele
volta com um copo cheio da água da torneira e me entrega. — Vai, beba, vai refrescar a
sua memória.

Hesito. Apesar da areia que se cumula em minha garganta, tal qual uma ampulheta, os grãos me afogando goela abaixo. Tento alcançar minha garrafa, mas o cansaço não deixa, sou tal qual as raízes de uma árvore. Desisto. Franzo o nariz e tomo o copo das
mãos do estranho. O que não mata!

— Não vai te matar — ele diz, lendo meus pensamentos.

Eu o encaro. Então, pronto! As lembranças me arrastam cova abaixo. Dor, rigidez, escuridão. A sombra crescente, o ronco assustador e o gélido torpor da morte. Eu me arrasto até a beirada da sepultura, e lá estou eu, estatelado no chão, olhos arregalados, a mirar o paraíso pela última vez. Deito sobre minhas costas e encaro o céu. Ele está cortado em quatro retângulos, quatro céus, quatro paraísos. Dou um largo sorriso. O pigarro do estranho me tira do êxtase.

— Não vai beber a água? — ele questiona, aparentando certa impaciência.
— O que não mata?!
Ele fecha o livro vermelho de uma vez e eu gosto de pensar que ele está sorrindo.
— Então vamos, acho que naquele retângulo lá já vai começar a chover — ele diz
e começa a caminhar por entre os túmulos.

Dou uma última olhada para o buraco onde minha carcaça jaz, e depois para meus paraísos cortados no céu. Eu me levanto, bebo a água de uma talagada só e corro atrás do estranho.

Larissa Brasil